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Alvorecer Ameaçado junho 27, 2010

Posted by Douglas "Mago D´Zilla" Reis in Contos.
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Na ponte da ASV Alvorada, o capitão Elder acompanhava a intensa atividade da tripulação. Três tripulantes, atarefados em seus painéis, respondem a suas inquirições sem desviar os olhos do trabalho. Na tela principal, um panorama estelar é interrompido apenas pela imagem parcial do planeta Terra abaixo.

Uma visualização da ASV Alvorada

ASV Alvorada passando por um gigante gasoso.

— Situação dos geradores de hiperfluxo?

— Geradores calibrados e alinhados, capitão. – responde a tenente Audra Barnard, com uma tranqüilidade que contrasta com o estado emocional do resto da equipe. – A discrepância foi eliminada!

— “Discrepância”, você diz… – responde o capitão, com meio sorriso, enquanto observa o visível alívio do resto da tripulação da ponte. – Alguma indicação do que causou este “probleminha” que poderia “só” ter desintegrado a nave?

— Uma flutuação não detectada no tunelador de fase quântica, senhor, que já foi sanada. Mas não houve perigo real. Tivemos trinta segundos inteiros para contornar a situação, e o fizemos dentro dos parâmetros exigidos pela Força Estelar.

— Diga-me, tenente, todos os marcianos são tão impassíveis como você?

— Não, senhor. – respondeu a oficial sorrindo, entre ofendida e divertida. – Só os normais.

Contornada a crise, o capitão mudou de assunto.

Creio que fizemos bem em não soar o alarme geral. A esta altura, o discurso da nossa ilustre passageira deve ter acabado. Senhor Carelli, acesse o áudio da transmissão presidencial.

— “… por isso estou aqui, em órbita de nosso planeta a bordo da primeira nave humana que romperá a barreira da luz para unir novamente nossos povos!”

— Putz, não acabou ainda! – comentou alguém. A presidente, é claro, continuou.

— “Não devemos esquecer jamais como tudo começou. Graças à cobiça desenfreada, os recursos do planeta foram drenados, desperdiçados ou inutilizados. Não apenas em grande escala, como por indústrias e usinas, mas também por atitudes negligentes de cada habitante da Terra.

“ Os antepassados de nossos irmãos distantes lançaram-se ao espaço em naves-colônias, afastando-se de problemas que julgavam insolúveis para tentar fundar novos mundos, novas civilizações livres dos vícios perniciosos que aqui imperavam. Agora, livres nós mesmos daqueles vícios, poderemos encontrar a Família Humana dispersa pelas estrelas e oferecer o melhor de nós, sem termos de quê nos envergonhar. É só, obrigada.”

A transmissão dos aplausos da restrita platéia no ginásio da nave convertido em auditório foi interrompida por uma ordem gesticulada pelo capitão. Quando este preparava-se para retomar a rotina da nave, outro sinal intruso surgiu no painel. Normalmente este não seria atribuição do capitão, mas fixou atentamente o oficial que recebeu a chamada interna, enquanto este conversava com alguém tocando o plug em seu ouvido.

— Senhor Carelli, – começou, compassadamente – não me diga que a acessora presidencial…

— … perdeu-se outra vez, capitão. A presidente Karnillos pede desculpas.

— Sei… – acionando um comando em sua console ao lado da poltrona, o capitão prosseguiu: – Elder para segurança: mais uma vez, descubram onde em nossa nave está Carmen Sanfuentes. Final.

— Tenente Barnard, assuma a ponte. – prosseguiu o capitão – Vou pessoalmente ajudar nas buscas desta vez. Senhor Carelli, alferes Aillard, venham comigo.

Sozinha na ponte, a tenente Barnard mergulha em seu trabalho. Uma mensagem de rotina chega e ela responde mecanicamente.

Orbital Lunar para ASV Alvorada! Sinal de sincronismo hiperespacial do planeta Frater analisado, diagnóstico anexo a esta transmissão. Confirme!

— Orbital Lunar, diagnóstico recebido. Final. – e, para seu console, Audra prosseguiu: – Computador, proceda análise do diagnóstico de Lunar e compare com nosso próprio. Exibir nesta tela. – enfatiza, cutucando sua estação com o indicador.

Ocupada com seus afazeres, Audra sequer move a cabeça quando a porta da ponte se abre, e uma mulher em trajes civis entra. Ela parece deslumbrada com tudo o que vê. A oficial finalmente percebe-a, e avança contra ela.

Esta área é restrita. Saia, por favor.

Desculpe-me, eu estava … – hesita a moça – …procurando o … “toalete”.

Ah, sim. Então você é Carmen Sanfuentes. Fique aí mesmo. – Voltando a seu console, Audra aciona o comunicador interno.

Tenente Barnard para Segurança. Sanfuentes está comigo na ponte.

Muito bem, tenente! – era a voz do capitão no aparelho – Estou voltando aí para pegá-la, olho nela.

O… o capitão Elder… vem aqui?

Sim, ele trabalha aqui. – responde Audra com mal disfarçada ironia.

Meu Deus, eu… – Carmen olha nervosa em volta, uma das mãos firme em torno da bolsa que levava atada à cintura – … li tanto sobre ele, o admiro tanto, e agora poderei vê-lo pessoalmente!

Sim. – continuou Audra, fria. – Ele não deve demorar, a Alvorada tem somente dois mil metros de comprimento.

— Mil novecentos e setenta e sete, para sermos exatas, certo? – corrigiu Sanfuentes, sorridente. – Eu acompanho a carreira do capitão Elder, e quando soube que ele comandaria esta nave, li tudo o que pude sobre ela.

Acredito…

Quando o computador sinaliza para indicar que a tarefa anteriormente ordenada fora cumprida, Audra desvia sua atenção para os instrumentos. Carmen transfigura completamente sua expressão facial e, sub-repticiamente, tira de sua bolsa uma caixinha preta pouco maior que uma caixa de fósforos, aciona nela um botão e encosta-a sob um dos consoles, onde ele se fixa.

Quando o capitão chega, acompanhado do tenente Carelli, ela mal havia acabado sua manobra, e toma um susto.

C… capitão Elder… eu…

Desculpas aceitas. Gostaria de escoltá-la pessoalmente de volta, se não se importar, srta. Sanfuentes. Só para ter certeza de…

Me importar? Será uma honra andar ao lado do primeiro terráqueo que chegou a capitão na Força Estelar Aliada. Madre de Diós, deve ser… o máximo.

Tem suas vantagens… – diz ele, olhando severo para seus tripulantes. – Eu não sou obrigado a ouvir piadas de terráqueos na minha ponte. Mas venha, srta. Sanfuentes, a presidente a aguarda. Senhor Carelli, fique e ajude a tenente Barnard.

Carmen e o capitão saem da ponte, acompanhados pelos olhares dos tripulantes. Após um tempo, estes entreolham-se.

Eles detonam o próprio planeta e depois não querem ouvir as verdades. – diz Carelli, ocupando um assento.

Sim. Mas não tente argumentar com o capitão sobre isto.

Eu não! – E, mudando de assunto enquanto insere alguns comandos em seu teclado – Por falar em piadas, sabe como um terráqueo faz ovos mexidos?

Sei: explode o galinheiro! – Ambos riem. Audra continua – E como um terráqueo toma leite?

Ah, esta é velha: mata a vaca, arranca as tetas e torce num copo. – Carelli ri um pouco, mas logo impacienta-se com o computador. – O que está havendo com esta coisa?

O tripulante tecla mais um pouco, furiosamente, e por fim soca o console em frustração.

Computador, diagnóstico de funções!

Após uma excruciante espera de quatro segundos, na qual os tripulantes tiveram oportunidade de mudar de posição três vezes, o computador respondeu:

Todos os sistemas plenamente funcionais!

Essa não! Audra, eu vou até o núcleo de computação ver o que está acontecendo. Parece até o século XX!

Só faltava esta! Nosso computador com o “Bang” do Milênio!

Acho que a expressão correta era o “Boogey” do Milênio, Audra!

Carelli sai, deixando Audra mais uma vez sozinha na ponte, por algum tempo. Então, um homem alto, de cabelos grisalhos e olhar severo entra, cabisbaixo e soturno. Olha para a tela, balança a cabeça e volta a seus devaneios sombrios. A tripulante, com um sorriso de reconhecimento, surpreende-se com a atitude do primeiro.

— Pai! Por quê veio se enfurnar aqui? A nova presidente da Terra acabou de discursar em rede mundial elogiando seu trabalho! O feriado de hoje representa o coroamento de todos os seus esforços para recuperar o meio ambiente do planeta, todos o estão procurando!

O homem mais velho apenas balança a cabeça afirmativamente, mas não responde. Erguendo a mão para pedir silêncio à filha, é prontamente obedecido.

— Audra, bem sei de tudo isto. Ninguém melhor do que eu sabe o que foram os últimos trinta e seis anos, bem como as condições do planeta antes de nós chegarmos. E ninguém melhor do que eu conhece o preço que foi pago.

— Ah, pai, isso ainda!

Malcolm estava de costas para a filha, e vira-se bruscamente, com expressão irada. Suspira em seguida, desistindo de sua fúria por julgá-la contraproducente.

— Não há como evitá-lo, filha! Vivemos com nossas escolhas para o resto de nossas vidas, você compreenderá isto um dia.

— Viver com elas tudo bem, mas lamentá-las eternamente…

— Como não lamentar a perda de bilhões de vidas, Audra? – responde Malcolm, novamente exaltado. – Tivemos que assistir a Terra agonizar por sua ganância, demolindo seu próprio ecossistema até atingirem o ponto sem retorno, e além! Se tivéssemos conseguido fazer algo, enviado missões diplomáticas para negociar tratados de não-agressão ecológica, partilhado nossos conhecimentos de engenharia planetária, nossos recursos…

— Hah! – o riso escarninho de Audra interrompeu o pai como uma bofetada faria – como se alguém fosse ouvi-los na época! Não havia condições, pai! Se a Terra fosse unificada, talvez, mas as centenas de governos nunca iriam concordar nas medidas necessárias em escala planetária para deter a degradação. Ameaçaram de morte quaisquer emissários de Marte que ousassem “interferir”, e seus povos apoiavam suas atitudes! Para a Terra viver um dia, todos eles tiveram que morrer! Foi a coisa certa a fazer, pai!

Não foi a coisa certa, Audra! Fizemos o que foi necessário, o que… – a emoção aparentemente leva a melhor sobre Malcolm aqui. – Você aprendeu sobre isso na escola, filha. Eu testemunhei o morticínio, observei as multidões enlouquecidas de fome, sede e doenças, e nada fiz. Eu permiti que se matassem e morressem envenenados, intoxicados pelo próprio planeta que um dia os nutrira. Quando imploraram a nós, colonos marcianos, por ajuda, dissemos não. Ainda … não era a hora…

Audra suspira, temendo exacerbar ainda mais o estado emocional do pai. Cautelosamente aproxima-se, põe a mão sobre o ombro de Malcolm e fala suavemente.

— Por terrível que tenha sido o passado, ele ficou para trás. A única parte do tempo que podemos alterar está adiante de nós, e só podemos enxergá-la de cabeça erguida.

— Heh! – Malcolm ri tristemente a este comentário – É para isso que ensinamos nossos filhos, então… para aprendermos de volta com eles!

A comporta de acesso à ponte abriu-se, e um grupo entrou em meio a uma conversa.

— … precisa ficar mais atenta, Cármen! Perder-se na nave assim… Doutor Barnard! – a mulher elegante porém sobriamente vestida dirige-se ao mais velho. Duas outras pessoas a acompanham, uma delas usando o mesmo tipo de uniforme de Audra.

— Senhora presidente. Capitão Elder. – Malcolm e Audra inclinam suas cabeças, em saudação. A mulher retribui o cumprimento.

— Minha secretária pessoal, Cármen Sanfuentes.

— Tenente Barnard, … – diz o oficial mais velho – Alguma mensagem do planeta Frater?

— Acabamos de analisar o primeiro sinal de sincronização de Alfa Centauro, capitão. Se tudo correr bem, poderemos entrar em hiper-fase em trinta minutos.

— Receio, Excelência… – diz o capitão, voltando-se para a presidente – …que isto indique o final de sua visita à minha nave. Espero que tenha apreciado!

— Deixe de formalidades comigo, Johnathan! – diz a mulher, sorrindo. – Sempre nos tratamos pelo primeiro nome, minha eleição não devia mudar isso. Ao menos, informalmente.

— Como queira,… Sofia. Não devemos voltar antes de um ano, com o primeiro corpo diplomático do planeta Frater para a nova Aliança. – Antes que pudesse continuar, contudo, novos sinais do painel exigiram a atenção da tripulação.

— Ponte para engenharia! – disse Audra, acionando um relê no console – Sr. Silva, por que estamos pré-aquecendo os propulsores? Só partiremos em mais meia hora!

— O computador iniciou a seqüência automaticamente! – respondeu uma voz no outro lado da conexão. – não conseguimos desabilitá-la por aqui.

— Alerta vermelho! – ordenou o capitão. Audra aciona mais alguns controles em outros painéis, enquanto Malcolm procura ficar fora do caminho. – Tripulação Alfa à ponte, acelerado!

— Capitão! – a tenente exclama, alarmada – Os controles não respondem! Todas as portas da nave foram lacradas.

— Eu não esperava estar na ponte! – disse a acessora da presidente, com uma adaga perigosamente próxima do pescoço de Malcolm. – Mas não faz a menor diferença! Para matar este maldito eu destruiria até um planeta inteiro.

— Cármen, pare com isso! Foi você a responsável por essa… …

— Sabotagem, “Excelência”! Este miserável… – disse Carmen, pressionando a adaga contra o pescoço de seu refém – …removeu toda a população de meu país para instalar musgos! Tivemos duas semanas para evacuar a Argentina antes que canhões de nêutrons orbitais aniquilassem toda e qualquer forma de vida abaixo da latitude -40°!!! Minha família…

Ainda que histérica, Carmen não abrandava a pressão no braço de Malcolm, torcido contra suas costas. Nem afastava um milímetro a adaga que mantinha seu refém sob controle. Seus olhos, lacrimejantes, contudo mantinham-se arregalados e em constante movimento, atenta a qualquer tentativa de resgate.

— …minha família não conseguiu escapar a tempo, como inúmeras outras! Não foi dada nenhuma extensão do prazo fatal!! Dezenas de milhares de pessoas chacinadas sem piedade por esses calhordas de sangue gelado, sob as ordens dele! – disse, sacudindo seu refém neste ponto. – Hoje minha família será vingada, mesmo que eu tenha que unir-me a eles na morte!

— Os propulsores estão ultrapassando temperatura nominal. – anunciou Audra, com a atenção dividida entre seus instrumentos e a tensa situação na ponte. – Capitão, se este aquecimento continuar, causará ruptura do núcleo hiper-fásico e explodirá a nave.

— Em nossa atual órbita… – acrescentou o capitão – …tal explosão destruiria novamente a camada de ozônio na atmosfera da Terra. Todo o trabalho de reforma ecológica teria que ser retomado, causando mais sofrimento ainda ao povo do planeta! Não vou permitir tal desastre, Cármen. É meu dever impedi-la, a qualquer custo! Só você pode salvar sua própria vida, mas é importante que entenda isto: seu plano não irá funcionar!

— Não se deixem paralisar por mim, capitão! – interrompeu Malcolm. E, para Cármen, disse: – Os povos das áreas afetadas tiveram cinco meses para abandoná-las! Nas últimas duas semanas conseguimos evacuar à força algumas famílias, mas outras resistiram com força letal, e ficaram.

— Mentiroso!!

— Se é vingança o que quer… – continuou Malcolm – tome minha vida e acabe logo com esta farsa, se tem coragem!

Enquanto a atenção de Cármen era disputada por Malcolm e pelo capitão, Audra esgueirava-se para próximo dela, por trás. Aprovando a manobra, Elder continuou a negociar com a terrorista.

— O dr. Barnard tem razão. Tem o objeto de seu ódio nas mãos, por quê não age agora? Eu lhe digo: você não é capaz de executar sua vingança a sangue frio! Teve que programar uma máquina para fazê-lo em seu lugar, para garantir que não voltasse atrás num momento crítico. – estendendo lentamente a mão, mais para Audra aguardar do que para Cármen, exortou: – Largue a faca agora, Cármen, e deixe-nos evitar que outros milhões sofram o destino de sua família!

Um ligeiro tremor na mão que portava a faca foi por instantes a única reação de Cármen às palavras do capitão. Então, seu rosto contorceu-se num medonho esgar de ódio e seu grito ressoou pela ponte.

— NÃÃÃÃÃÃÃO!!!

Quando, porém, moveu o braço para golpear seu refém, Cármen foi detida por Audra que, num golpe, conseguiu libertar Malcolm (que rolou pelo chão de mau jeito, batendo a cabeça) mas falhou em desarmar a terrorista. As duas então atracaram-se enquanto o capitão Elder correu para um dos painéis de controle, abrindo-o e expondo suas entranhas eletrônicas para fazer algumas conexões diretas, enquanto a presidente apressou-se em socorrer o cientista caído. Audra finalmente domina Cármen e o capitão, tendo concluído suas gambiarras, pode tentar sua estratégia.

— Computador! Reconhecer padrão vocal e autoridade!

— Elder, Johnathan Veridius, capitão da Força Estelar Aliada, no comando da A.S.V. Alvorada. – recitou o computador.

— Desativar todos os sistemas de propulsão e periféricos imediatos!

— Impossível cumprir comando. – teimou a máquina. – Procedimento prioritário em curso.

Malcolm aproxima-se do capitão enquanto este argumenta com os circuitos lógicos.

— Do que o computador está falando, Capitão?

— Não sei, doutor! Computador, detalhe procedimento prioritário!

— Estrela Sol prestes a entrar em fase Supernova! Única chance de salvar a tripulação: executar um salto hiperfásico em sobrecarga.

— O Sol não vai explodir! Computador, confirme condição da estrela com sondagem completa de espectro!

— Impossível cumprir comando. Toda a capacidade desta unidade é necessária para procedimento emergencial.

— Já é tarde demais, capitão! – gargalhou Cármen, alucinada. – É tarde demais.

— Cármen… – respondeu Elder, andando furiosamente em direção a ela, mas deteve-se a meio do caminho. – … você pode ter razão.

— Oh, não… Sofia gemeu, encolhendo-se. Mas o capitão fez um gesto apaziguador enquanto voltava ao console.

— Computador, não há mais tempo! O Sol já está se expandindo, temos que partir agora! AGORA!!

— Alerta! Alerta! – entre sirenes e luzes de emergência, o computador entoava sua ladainha letal, enquanto o capitão teclava furiosamente no console. – Procedimento automático de emergência, todos a seus postos! Sobrecarga do núcleo hiperfásico em dez…

— NÓS VAMOS MORREEEEEEER!!! – grita Cármen enquanto o computador prossegue a contagem fatídica.

… seis… cinco… quatro…

Com um gesto enfático, o capitão puxa um dos cabos que ficara solto e encaixa-o em algum lugar nas entranhas do console exposto, provocando uma pequena série de explosões no equipamento. Neste ponto o computador interrompeu a contagem. As luzes voltaram ao normal, e o capitão Elder recosta-se em seu assento, enxugando o suor da testa com a mão, transferindofuligem desta para aquela.

— Hoje não, Cármen! – retorquiu ele, calmamente. – Hoje não.

Audra retornou a seu posto, acionando vários comandos com o semblante compenetrado. As portas foram liberadas, e dois tripulantes entram em passo acelerado. O capitão os detém.

— Prendam-na! – disse, apontando para a acessora. Esbravejando, ela vai sendo levada para fora, quando a presidente pede que esperem.

— Cármen… – começou Sofia, com emoções conflitantes em curso. A acessora encarou-a com fria altivez, demonstrando até mesmo um certo desprezo.

— … está despedida. – finalizou, acenando para que a levassem.

— Uma inteligente manobra, capitão. – elogiou Malcolm. – Ao alterar as prioridades do computador, abriu uma janela em sua capacidade de processamento.

— Precisei fazer a sondagem manual mais rápida da minha vida, mas funcionou. Quando o computador recebeu os dados reais do Sol, cancelou a sobrecarga e anulou a sabotagem.

— Danos mínimos no núcleo hiperfásico, capitão. – relatou Audra. – O sr. Silva garante que não será necessário alterar o cronograma de partida.

— Sofia, dr. Barnard, devo então pedir-lhes que voltem a seus aposentos. Nossa primeira escala na estação orbital lunar ocorrerá dentro do previsto, e vocês terão pouco tempo para desembarcar.

— Certamente, capitão. Sra. presidente, me acompanha?

Os dois civis abandonaram a ponte, enquanto os tripulantes que levaram Cármen voltam e ocupam seus postos. Ao lado de sua poltrona, o capitão aprova silenciosamente tudo o que vê. Já Audra, com seu console em pandarecos, balança a cabeça estalando a língua em desaprovação.

— Olhe só que serviço de… – começou ela, calando a tempo a palavra “terráqueo”.

— Serviço de quê, tenente? – perguntou o capitão, atento.

— … de emergência, senhor. – Movendo-se para uma estação próxima, reconfigurou-a para seu uso.

— Todos os sistemas nominais, capitão. – disse quando pronta. – Propulsores sub-luz alinhados.

— Ruptura de órbita autorizada. Prontos para partir.

— Tenente Barnard, – disse o capitão, ritualisticamente – acionar!

Na tela, a Terra deslizou gentilmente para fora da vista conforme a Alvorada iniciava uma nova era.

FIM

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